
No Brasil revistas sobres quadrinhos sempre dividiram a opinião dos aficionados pela Nona Arte. Muitas vezes as revistas tinham o rabo preso com uma editora maior, outras vezes o formato não agradava, muitas vezes o conteúdo era insuficiente. Nos dias hoje criar uma revista voltada para o entretenimento é complicado por conta não apenas do custo e da irregularidade do publico, mas também por conta da Internet, pois qualquer novidade que surja, é catapultada imediatamente para a grande rede. O que sobra então para as revistas de entretenimento divulgarem se quando a revista chegar numa banca aquela noticia será mais do que passado, pois pode sofrer diversas atualizações durante o dia, semana ou mês? Anos anteriores à explosão da Internet como veículo tipicamente de massa como são hoje, revistas como Wizard Brasil, Herói e Animax, apenas para citar as mais atuantes e marcantes no mercado editorial, conseguiam suprir a gama de informações que um leitor de quadrinhos, fã de cinema fantástico, ou otaku (fã de animação japonesa e mangás), necessitavam. No entanto, se comparado com a forma editorial em que vivemos hoje, aqueles formatos nunca se adaptariam ao mercado atual.

A Wizard Brasil tinha um problema muito sério quando editado pela Globo (com Image Comics), pois puxava toda a sardinha para editora que tinha entrado na briga no mercado de quadrinhos mensais com a Editora Abril (e o selo Abril Jovem), que na época era soberana no assunto lançando uma tonelada de títulos Marvel e DC fora especiais e minisséries todos os meses. Mesmo com a palavra de que seria imparcial, era impossível não ver as alfinetadas e estocadas gritantes na rival. A revista durou apenas 15 números de algumas boas matérias e muita enrolação em outras. A revista Herói foi um caso a parte, que não tinha vinculo com ninguém e podia falar o que quisesse, mas pelo formato pequeno e uma estrutura visivelmente limitada, a revista de muitos acabava se restringindo a notas e matérias muito curtas, fora a tonelada de material sobre Cavaleiros do Zodíaco, que chegava a ser muitas vezes banais e caça-níqueis. Mas foi uma boa publicação que tentou ser o que a Wizard da Editora Globo não conseguiu ser: uma boa e completa revista sobre entretenimento nerd. Era legal, eu tenho uma porrada disso. Na onda da Herói surgiram uma pancada de revistas similares, todas apresentando o mesmo formato e praticamente com a mesma estrutura editorial. Não iam muito longe. Outra boa revista que seguia essa linha, mas com o foco na animação japonesa, mangás e cultura nipônica, a Animax, conseguiu marcar melhor a época na sua categoria, com textos mais completos, matérias mais redondas e um humor muito peculiar e bem-vindo. Durou até muitos números, mas seu formato também já não estava mais conseguindo se sustentar em bancas.

Fora essa publicações, revistas diversas surgiram e caíram pelo caminho. Algumas com boas propostas, outras com a cara dura de apenas chupar dinheiro, e muitas com um amadorismo medonho. A Wizard ainda teve dois suspiros, uma pela editora Hangar 18 apenas com uma edição e outra pela Panini Comics, que assim como a Globo usava a revista de plataforma de venda para seu material, saindo da imparcialidade e assumindo “discretamente” seu lado de propaganda pessoal. Tinha boas matérias, conseguiu ser muito superior as suas versões anteriores, mas ainda estava com o rabo preso e isso não deixava a revista falar de outros quadrinhos pelo mundo, e quando o falava, era sempre de forma ora rápida, ora contida, ora apenas como uma forma de dizer que “também conseguiam sair do feijão com arroz” que era mantida por conta do “rabo preso” com a Panini Comics. Uma revista que ainda hoje está em bancas e conseguiu passar por tanta turbulência é a Sci-Fi, uma revista diversificada sobre séries, filmes e livros fantásticos e ficção basicamente, mas claro, com uma pegada em tudo um pouco. Não sei como que anda sua estrutura editorial, mas se está aí até hoje, alguém deve ter acertado.

Agora TODO esse rodeiro para poder chegar a uma revista que realmente vale a pena comprar em bancas. Porque fiz todo esse caminho? Para mostrar como é importante uma boa estrutura não apenas física, mas também editorial. Concebido por Emanuel de Souza, um fã acima de tudo de quadrinhos, a revista surgiu em 2006 como um especial para o lançamento do filme do Superman- O Retorno e sua aceitação foi tão boa que virou uma revista bimestral. Qual o segredo dessa revista? Porque ela consegue ser melhor que todas as outras? É simples: ela aceita que a Internet é uma via que não se combate e evita virar uma revista de informações datadas. A revista tem sua base toda em matérias sólidas que em muitos casos são atemporais, quer dizer, pode ser lida ontem, hoje e sempre quase toda. A construção editorial da revista é dotada de uma fórmula muito boa, com uma estrutura que trás o leitor de quadrinhos e fã em geral para dentro dela. Quando o editor e criador Manoel de Souza resolveu criar a revista, muito provavelmente ele sabia dos desafios que enfrentaria e um desses desafios é justamente a Internet e claro, sabia que não dava para acompanhar por papel um veículo que se atualiza todos os dias.

Com isso a Mundo dos Super-Heróis se tornou uma revista baseada num principio simples, mas muito funcional de falar sobre um determinado assunto, resgatando personagens, assuntos e interesses de forma catedrática, isto é, de uma maneira que não te passe apenas uma informação datada, mas sim uma informação que possa ser catalogada e enxertada de maneira a ficar sempre presente. Com isso as matérias de capa viram dossiês sobre o assunto, com datas, melhores momentos, curiosidades, etc, e isso o torna uma “enciclopédia” gostosa de se ler. As pessoas envolvidas na confecção da revista têm um alinhamento, uma sintonia fantástica. Não são colunistas malucos a fim de elevar seus nomes e sim pessoas comprometidas em passar informações bacanas e que fiquem na sua cabeça. A cada nova edição um show de competência e entretenimento, com muita informação, imagens e um ótimo texto. Aqui todo mundo se segue de maneira profissional, e não levam para as palavras manias pessoais que muita gente tem na hora de escrever, como usar o temperamento pessoal como combustível efusivo. É sem dúvidas a melhor revista que já surgiu nesse seguimento com uma estrutura física muito atrativa. Vida longa a publicação e seus colaboradores.
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